Condições Ortopédicas

Doença de Perthes: o que é, sintomas, diagnóstico e tratamento em crianças

Doença de Perthes: sintomas e tratamento em crianças

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Quando uma criança começa a mancar sem uma causa evidente, apresenta dor no quadril ou reclama repetidamente de dor no joelho, é importante investigar a origem do problema. Nem toda dor ou alteração da marcha significa algo grave, mas algumas doenças ortopédicas da infância podem se manifestar de forma sutil.

Uma delas é a Doença de Legg-Calvé-Perthes, mais conhecida simplesmente como Doença de Perthes.

O que é a Doença de Perthes?

A Doença de Perthes é uma doença ortopédica da infância caracterizada pela interrupção temporária do fluxo sanguíneo para a cabeça do fêmur.

Quando o osso deixa de receber sangue adequadamente, parte do tecido ósseo pode sofrer uma lesão chamada necrose avascular ou isquêmica.

Com o tempo, o organismo inicia um processo natural de reabsorção e reconstrução desse osso.

Por isso, a doença não acontece de uma única vez. Ela passa por diferentes fases, nas quais a cabeça do fêmur pode perder resistência, sofrer deformações e, posteriormente, passar por um processo de reconstrução.

O principal objetivo do tratamento é permitir que a cabeça do fêmur cicatrize e se remodele da melhor maneira possível dentro do acetábulo, que é a cavidade da bacia onde o fêmur se encaixa.

Em que idade a Doença de Perthes costuma aparecer?

A Doença de Perthes ocorre principalmente durante a infância.

É mais frequente entre crianças de aproximadamente 4 e 10 anos de idade, com pico de ocorrência por volta dos primeiros anos dessa faixa etária.

A doença é mais comum em meninos do que em meninas. Na maioria dos casos, apenas um quadril é afetado, embora o comprometimento bilateral possa ocorrer.

Qual é a causa da Doença de Perthes?

Essa é uma das perguntas mais frequentes dos pais.

Na maioria dos casos, não existe uma causa única identificável.

O evento principal é a redução ou interrupção do suprimento sanguíneo para a cabeça do fêmur, mas ainda não se sabe exatamente por que isso acontece em todas as crianças.

Acredita-se que a doença tenha uma origem multifatorial, envolvendo uma combinação de fatores vasculares, genéticos, ambientais e relacionados ao crescimento ósseo.

É importante destacar que, na maioria das vezes, a Doença de Perthes não acontece porque a criança caiu, praticou um esporte ou fez alguma atividade específica.

Quais são os sintomas da Doença de Perthes?

Os sintomas podem aparecer lentamente.

Muitas crianças não apresentam um quadro intenso de dor no início, o que pode fazer com que o diagnóstico seja percebido apenas após algumas semanas ou meses.

Os sinais mais comuns incluem:

  • Mancar sem causa aparente

  • Dor no quadril

  • Dor na virilha

  • Dor na coxa

  • Dor no joelho

  • Diminuição da movimentação do quadril

  • Dificuldade para correr ou praticar atividades físicas

  • Piora da dor após atividades

Um detalhe importante é que algumas crianças podem apresentar dor apenas no joelho, mesmo quando o problema está localizado no quadril.

Isso acontece porque determinadas estruturas nervosas podem transmitir a percepção da dor para outra região do membro inferior. Por esse motivo, uma criança com dor persistente no joelho deve ter o quadril cuidadosamente avaliado quando necessário.

Meu filho está mancando. Pode ser Doença de Perthes?

Mancar é um dos sinais mais frequentes da Doença de Perthes, mas existem diversas outras causas possíveis para uma criança mancar.

Algumas situações podem ser temporárias e benignas, enquanto outras exigem investigação mais rápida.

Por isso, uma regra prática é importante:

A avaliação é especialmente importante quando mancar

  • Persiste por vários dias ou semanas

  • É acompanhada por dor

  • Limita atividades que a criança normalmente realizava

  • Está associada à diminuição dos movimentos do quadril

  • Aparece sem uma explicação clara

Febre, mal-estar importante ou dor intensa também exigem avaliação médica imediata, pois podem indicar outras condições diferentes da Doença de Perthes, como infecções ou processos inflamatórios.

Como é feito o diagnóstico da Doença de Perthes?

O diagnóstico começa com uma avaliação clínica detalhada.

O ortopedista avalia a forma como a criança caminha, a presença de dor e principalmente os movimentos do quadril.

Na Doença de Perthes, é comum existir limitação de movimentos como:

  • Abdução do quadril

  • Rotação interna

  • Em alguns casos, extensão completa

Radiografia do quadril

A radiografia costuma ser o primeiro exame utilizado.

Radiografia da pelve de uma criança apresentando Doença de Perthes no quadril esquerdo.

Dependendo da fase da doença, ela pode mostrar alterações na forma e na estrutura da cabeça do fêmur.

Em fases muito iniciais, entretanto, a radiografia ainda pode parecer normal.

Ressonância magnética

Quando existe suspeita clínica importante e as radiografias não esclarecem o diagnóstico, a ressonância magnética pode ser muito útil.

Esse exame é mais sensível para identificar alterações precoces no osso e também pode ajudar na avaliação da extensão do comprometimento da cabeça do fêmur.

Quais são as fases da Doença de Perthes?

Esquematização das fases da Doença de Perthes.

De forma simplificada, a evolução da doença pode ser dividida em quatro fases principais.

Fase inicial ou de necrose

Ocorre após a alteração do suprimento sanguíneo da cabeça do fêmur.

O osso perde parte de sua vitalidade, embora a cartilagem articular continue recebendo nutrição.

Fase de fragmentação

É uma das fases mais importantes da evolução da doença.

O organismo começa a remover o tecido ósseo comprometido e inicia o processo de reparação.

Nesse período, a cabeça do fêmur pode ficar mais vulnerável a deformações.

Fase de reossificação

O organismo começa progressivamente a formar novo tecido ósseo.

A cabeça do fêmur inicia um processo de reconstrução e remodelação.

Fase de cicatrização ou remodelação

O processo de reconstrução se completa, e a forma final do quadril passa a ser definida.

Esse processo pode durar anos e exige acompanhamento ortopédico periódico.

A Doença de Perthes tem cura?

A Doença de Perthes passa por um processo natural de revascularização e reconstrução do osso.

Entretanto, isso não significa que todos os casos evoluam da mesma maneira.

O resultado depende principalmente de como a cabeça do fêmur consegue se reconstruir ao longo do crescimento.

O objetivo do tratamento é favorecer uma articulação mais congruente, com a cabeça do fêmur o mais próxima possível de uma forma arredondada e bem encaixada no acetábulo.

Quanto melhor a forma e a congruência da articulação ao final do processo, maior tende a ser a chance de uma boa função do quadril no futuro.

Como é o tratamento da Doença de Perthes?

Não existe um único tratamento adequado para todas as crianças.

A decisão depende de diversos fatores, incluindo:

  • Idade da criança

  • Fase da doença

  • Grau de comprometimento da cabeça do fêmur

  • Forma do quadril

  • Presença de extrusão da cabeça femoral

  • Amplitude dos movimentos

  • Classificações radiográficas utilizadas pelo ortopedista

O tratamento deve ser individualizado.

Tratamento não cirúrgico

Em algumas crianças, especialmente nas mais jovens e com doença menos extensa, o tratamento pode não envolver cirurgia.

As estratégias podem incluir:

  • Controle da dor

  • Modificação temporária das atividades

  • Evitar atividades de alto impacto em determinados períodos

  • Fisioterapia

  • Exercícios para preservar a mobilidade do quadril

  • Acompanhamento clínico e radiográfico regular

A manutenção da mobilidade, especialmente de determinados movimentos do quadril, é uma parte importante do tratamento.

Fisioterapia na Doença de Perthes

A fisioterapia pode ajudar a preservar ou recuperar a amplitude de movimento do quadril.

O programa deve ser individualizado de acordo com a fase da doença e as características de cada criança.

Os exercícios podem ter como objetivos:

  • Manter a mobilidade

  • Melhorar a abdução do quadril

  • Preservar a rotação interna

  • Evitar contraturas

  • Manter a função muscular

É importante que os exercícios e atividades sejam orientados pela equipe responsável pelo acompanhamento da criança.

Órteses e imobilizações

Em situações selecionadas, podem ser utilizados métodos de contenção, órteses ou imobilizações.

O objetivo é manter a cabeça do fêmur adequadamente posicionada dentro do acetábulo durante determinadas fases da doença.

A indicação depende do padrão de comprometimento e não é necessária em todos os casos.

Exemplo de órtese de abdução que pode ser utilizada em alguns casos de Perthes.

Quando a cirurgia pode ser necessária?

A cirurgia pode ser considerada quando existem características que indicam maior risco de deformidade da cabeça do fêmur.

Entre os fatores avaliados estão:

  • Idade mais avançada no início da doença

  • Maior comprometimento da cabeça do fêmur

  • Perda de contenção dentro do acetábulo

  • Progressão da deformidade

  • Limitação importante dos movimentos

Um dos objetivos de determinados procedimentos cirúrgicos é melhorar a contenção, ou seja, favorecer o posicionamento da cabeça do fêmur dentro do acetábulo durante o processo de reconstrução.

A decisão cirúrgica é individual e deve considerar cuidadosamente as características de cada quadril.

A idade influencia o prognóstico?

Sim.

A idade em que a doença começa é um dos fatores importantes para avaliar o potencial de remodelação do quadril.

Em geral, crianças mais jovens possuem maior capacidade de remodelação óssea.

Por outro lado, crianças que desenvolvem a doença em idade mais avançada podem apresentar maior risco de deformidades residuais, especialmente quando existe comprometimento extenso da cabeça do fêmur.

Entretanto, idade não é o único fator que determina o prognóstico.

A extensão da doença, a forma da cabeça do fêmur, a contenção do quadril e a mobilidade articular também são fundamentais na avaliação.

A Doença de Perthes pode causar problemas na vida adulta?

Algumas crianças evoluem com um quadril de boa forma e função.

Outras podem permanecer com alterações na anatomia do quadril após o término do crescimento.

Dependendo da deformidade residual, podem ocorrer problemas como:

  • Impacto femoroacetabular

  • Dor no quadril

  • Lesões da cartilagem ou do labrum

  • Limitação funcional

  • Desgaste precoce da articulação

Por esse motivo, o acompanhamento adequado durante a infância é importante não apenas para controlar os sintomas atuais, mas também para proteger a saúde do quadril a longo prazo.

Quanto tempo dura a Doença de Perthes?

A evolução da Doença de Perthes é lenta.

O processo completo de necrose, fragmentação, revascularização e remodelação pode levar vários anos.

Por isso, o acompanhamento costuma ser prolongado e pode incluir avaliações clínicas e radiografias seriadas.

Para as famílias, entender esse processo é importante: o tratamento não busca apenas aliviar a dor de forma imediata, mas acompanhar e proteger o quadril durante todo o período de crescimento e reconstrução óssea.

Quando procurar um ortopedista pediátrico?

É recomendável procurar avaliação especializada quando uma criança apresenta:

  • Marcha mancando de forma persistente

  • Dor frequente no quadril

  • Dor na virilha

  • Dor na coxa sem causa clara

  • Dor recorrente no joelho associada à manqueira

  • Diminuição dos movimentos do quadril

  • Dificuldade progressiva para correr ou brincar

Nem toda criança que manca tem Doença de Perthes.

No entanto, identificar corretamente a causa da alteração da marcha é fundamental para definir se há necessidade de tratamento e acompanhamento.

Conclusão

A Doença de Perthes é uma condição ortopédica que afeta o quadril durante o crescimento e exige acompanhamento cuidadoso ao longo de sua evolução.

Embora o diagnóstico possa gerar preocupação, é importante lembrar que existem diferentes formas de apresentação e que o tratamento é individualizado.

A avaliação especializada permite compreender a fase da doença, o grau de comprometimento do quadril e quais estratégias são mais adequadas para cada criança.

O objetivo é sempre o mesmo: preservar a mobilidade, proteger a forma da cabeça do fêmur e favorecer a melhor função possível do quadril durante o crescimento e ao longo da vida.

Perguntas frequentes sobre a Doença de Perthes
A Doença de Perthes é hereditária?

A maioria dos casos ocorre de forma isolada. Embora fatores genéticos possam contribuir em alguns pacientes, não existe um padrão hereditário simples que explique a maioria dos casos.

Uma queda pode causar a Doença de Perthes?

Uma queda isolada geralmente não é considerada a causa direta da doença. A origem da Doença de Perthes é multifatorial e ainda não é completamente compreendida.

Criança com Perthes pode praticar esportes?

A recomendação depende da fase da doença, da presença de dor e da avaliação do quadril. Algumas atividades podem precisar ser temporariamente restringidas, especialmente exercícios de alto impacto. O plano deve ser individualizado pela equipe responsável pelo acompanhamento.

Toda criança com Doença de Perthes precisa de cirurgia?

Não. Muitas crianças podem ser tratadas sem cirurgia. A indicação depende da idade, da gravidade e das características específicas da doença.

A dor no joelho pode ser causada por um problema no quadril?

Sim. Em algumas situações, incluindo a Doença de Perthes, a dor pode ser percebida no joelho mesmo quando a origem do problema está no quadril. Por isso, o exame clínico deve avaliar todo o membro inferior.


Dra. Mariana Lobo

Ortopedia e Traumatologia Infantil

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CRM 244545/SP | RQE 122612

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