Minnie Mari

Hiperelasticidade e hiperfrouxidão ligamentar em crianças: quando a criança parece o Homem-Aranha? Entenda a hipermobilidade articular

Hipermobilidade infantil: quando a flexibilidade exige avaliação.

Guia visual sobre a relação entre o uso de mochilas e a saúde da coluna em crianças e adolescentes.

“Olha o que eu consigo fazer!”

Algumas crianças conseguem dobrar os dedos de maneiras impressionantes, encostar as mãos no chão sem dobrar os joelhos ou levar determinadas articulações muito além do movimento esperado.

É comum os pais brincarem que o filho é “de borracha” ou que parece o Homem-Aranha.

Mas será que ser muito flexível é um problema?

Nem sempre.

A hipermobilidade articular é relativamente comum na infância e, muitas vezes, representa apenas uma característica física da criança, sem causar qualquer prejuízo. A Sociedade Brasileira de Pediatria estima que a hipermobilidade possa estar presente em cerca de 10% a 20% das crianças e adolescentes.

O mais importante é entender quando essa flexibilidade é apenas uma característica e quando está associada a sintomas que precisam de avaliação.

O que é hipermobilidade articular?

A hipermobilidade articular acontece quando uma ou mais articulações apresentam uma amplitude de movimento maior do que a esperada.

Em outras palavras, a criança consegue movimentar determinada articulação “mais longe” do que a maioria das pessoas.

Isso pode acontecer nos dedos, cotovelos, joelhos, coluna, ombros, quadris e outras articulações.

E a hiperfrouxidão ligamentar?

Os ligamentos são estruturas que ajudam a estabilizar as articulações.

Quando existe maior frouxidão dos tecidos que dão estabilidade à articulação, ela pode apresentar uma amplitude de movimento aumentada.

Por isso, muitas vezes ouvimos os termos “hiperfrouxidão ligamentar”, “hipermobilidade articular” ou “criança muito flexível”.

Apesar disso, esses termos não significam automaticamente que a criança tenha uma doença.

Então toda criança muito flexível precisa de tratamento?

Não.

Esse é um ponto muito importante.

Uma criança pode ser bastante flexível, não sentir dor, praticar esportes normalmente e não apresentar nenhuma limitação.

Nesses casos, a hipermobilidade pode ser apenas uma característica individual.

O problema aparece quando a hipermobilidade está associada a dor, instabilidade, episódios repetidos de lesão ou dificuldade para realizar atividades do dia a dia.

A avaliação deve considerar a criança como um todo, e não apenas o quanto determinada articulação consegue se movimentar.

Quais sinais podem indicar que é importante investigar?

Alguns sinais merecem atenção dos pais.

Dor frequente

A criança pode apresentar dor nos joelhos, tornozelos, pés, quadris ou outras articulações, especialmente depois de atividades físicas.

Também podem ocorrer dores musculares ou ao redor das articulações.

Cansaço durante atividades físicas

Algumas crianças podem reclamar de cansaço ou desconforto após atividades que outras crianças realizam sem dificuldade.

Entorses ou lesões recorrentes

Uma criança que apresenta entorses repetidas, principalmente no tornozelo, pode precisar de uma avaliação mais cuidadosa.

Sensação de instabilidade

“Meu joelho sai do lugar.”

“Meu tornozelo vira toda hora.”

“Meu ombro parece que vai escapar.”

Essas queixas podem indicar que a hipermobilidade está acompanhada de instabilidade articular.

Estalos associados a dor

Estalos isolados são comuns e, na maioria das vezes, não representam um problema.

Porém, quando os estalos estão associados a dor, sensação de instabilidade ou episódios repetidos de trauma, vale procurar avaliação médica.

Como o médico avalia uma criança muito flexível?

O diagnóstico é principalmente clínico.

Isso significa que uma boa conversa com a família e um exame físico detalhado são fundamentais.

Durante a consulta, o ortopedista pediátrico pode avaliar:

  • amplitude de movimento das articulações;

  • alinhamento dos membros inferiores;

  • estabilidade dos joelhos, tornozelos e outras articulações;

  • força muscular;

  • equilíbrio e propriocepção;

  • padrão de marcha;

  • histórico de dores e lesões;

  • presença de entorses ou luxações recorrentes;

  • impacto dos sintomas nas atividades esportivas e na rotina.

Uma das ferramentas utilizadas para avaliar hipermobilidade generalizada é o escore de Beighton.

Em crianças, referências internacionais atuais utilizam, como parâmetro de hipermobilidade generalizada, uma pontuação de 6 ou mais em 9 pontos, embora a avaliação não deva se limitar ao número obtido no teste.

Hipermobilidade é a mesma coisa que síndrome de Ehlers-Danlos?

Não.

Essa é uma dúvida muito comum.

Ter articulações muito móveis não significa automaticamente ter síndrome de Ehlers-Danlos.

Existem diferentes condições relacionadas ao tecido conjuntivo, e algumas delas podem apresentar hipermobilidade. Porém, elas possuem características clínicas específicas e precisam ser diferenciadas durante a avaliação médica.

Em crianças e adolescentes, inclusive, o diagnóstico deve ser feito com bastante cuidado, porque a hipermobilidade pode diminuir ao longo do crescimento e algumas características clínicas podem se modificar com a maturação.

E qual é o tratamento?

Se a criança é hipermóvel, mas não apresenta dor, instabilidade ou limitações, muitas vezes não é necessário nenhum tratamento específico.

O mais importante é orientação.

Quando existem sintomas, o tratamento é individualizado.

Fortalecimento muscular

A musculatura tem papel fundamental na estabilidade das articulações.

Por isso, exercícios orientados podem ajudar a melhorar força, controle dos movimentos e estabilidade.

Propriocepção e equilíbrio

Treinar o corpo para perceber melhor a posição das articulações também pode ser importante, principalmente para crianças com instabilidade ou entorses recorrentes.

Atividade física

Ser hipermóvel não significa que a criança precise parar de praticar esportes.

Pelo contrário: a atividade física adequada pode fazer parte do tratamento e ajudar no fortalecimento.

O importante é respeitar os sintomas e, quando necessário, contar com orientação profissional. A SBP recomenda incentivar exercícios e desenvolver autonomia física, com atenção especial a atividades que exigem níveis muito elevados de flexibilidade.

E a dança e a ginástica?


Crianças que fazem ballet, ginástica artística, ginástica rítmica ou outras modalidades que exigem muita flexibilidade podem apresentar hipermobilidade com maior frequência.

Isso não significa que elas precisem abandonar essas atividades.

Mas é importante evitar a ideia de que “quanto mais alongada, melhor”.

Quando existe hipermobilidade, o objetivo deve ser desenvolver força, controle e estabilidade, e não simplesmente aumentar ainda mais a amplitude dos movimentos.

A mensagem da Minnie Mari 🕷️

Ser flexível pode ser divertido.

E algumas crianças realmente parecem ter superpoderes!

Mas a Minnie Mari quer lembrar uma coisa:

Ser flexível não é necessariamente um problema.

O que merece atenção é quando essa flexibilidade vem acompanhada de dor, instabilidade, entorses frequentes, luxações ou dificuldade para brincar e praticar esportes.

Nesses casos, vale investigar.

A criança não precisa deixar de ser “o Homem-Aranha”.

Ela precisa aprender a usar essa flexibilidade com força, controle e segurança. 🕷️❤️


Dra. Mariana Lobo

Ortopedia e Traumatologia Infantil

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CRM 244545/SP | RQE 122612

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