Crescimento / Esportes

Lesões por uso excessivo e sobrecarga em crianças e adolescentes: quando a prática esportiva causa dor?

Lesões por sobrecarga em crianças: saiba identificar os sinais.

Guia visual sobre a relação entre o uso de mochilas e a saúde da coluna em crianças e adolescentes.

A prática de esportes é fundamental para o desenvolvimento de crianças e adolescentes. Além dos benefícios para a saúde física, a atividade física contribui para a autoestima, a concentração, a socialização e o trabalho em equipe.

Mas existe uma situação em que o exercício deixa de ser apenas benéfico e passa a exigir atenção: quando movimentos repetitivos ultrapassam a capacidade do corpo em crescimento de se recuperar.

É nesse contexto que podem surgir as lesões por uso excessivo, também chamadas de lesões por sobrecarga.

Diferentemente de uma lesão traumática aguda, como uma fratura após uma queda, essas condições geralmente aparecem de forma gradual. A criança começa a sentir dor durante determinada atividade e, muitas vezes, continua treinando até que o problema se torne mais importante.

O que são lesões por uso excessivo?

Lesões por uso excessivo acontecem quando uma determinada estrutura do corpo é submetida repetidamente a uma carga maior do que sua capacidade de adaptação e recuperação.

Correr, saltar, chutar, arremessar e repetir movimentos específicos são atividades normais em muitos esportes. O problema pode surgir quando não há equilíbrio adequado entre:

  • intensidade do treinamento;

  • frequência das atividades;

  • tempo de recuperação;

  • estágio de crescimento da criança;

  • técnica utilizada;

  • variedade de movimentos e esportes praticados.

Em crianças e adolescentes, existe ainda uma particularidade importante: o esqueleto está em crescimento.

As placas de crescimento e as regiões onde músculos e tendões se inserem no osso podem ser especialmente vulneráveis às forças repetitivas.

Por que as crianças são diferentes dos adultos?

Nos adultos, determinadas atividades repetitivas frequentemente causam lesões musculares e tendíneas.

Nas crianças, porém, os tendões costumam ser relativamente resistentes. Muitas vezes, a região mais vulnerável é justamente o local onde o tendão exerce força sobre um osso que ainda está crescendo.

Desenho esquemático de mecanismo de lesão na placa de crescimento dos ossos infantis.

Isso explica por que algumas crianças desenvolvem dores em regiões chamadas de apófises, áreas ósseas relacionadas à inserção de músculos e tendões.

Essas condições são conhecidas como lesões por tração apofisária ou apofisites.

Um exemplo conhecido é a doença de Osgood-Schlatter, que provoca dor na região da tuberosidade da tíbia, logo abaixo do joelho.

Quais são os principais tipos de lesões por sobrecarga?

As lesões podem ocorrer em diferentes partes do corpo, dependendo da idade da criança e do tipo de esporte praticado.

Ombro

Esportes que exigem arremessos repetitivos podem causar sobrecarga na região do ombro.

Em atletas jovens, uma preocupação importante é o estresse repetitivo sobre a placa de crescimento do úmero, condição conhecida popularmente como ombro do jogador mirim.

A dor durante ou após os arremessos não deve ser simplesmente ignorada.

Desenho destacando lesões em crianças arremessadoras.

Cotovelo

Movimentos repetitivos de arremesso também podem causar lesões no cotovelo.

Entre as possíveis alterações estão:

  • sobrecarga das estruturas do lado medial do cotovelo;

  • lesões por tração;

  • alterações relacionadas ao epicôndilo medial;

  • osteocondrite dissecante do capítulo.

A dor persistente durante atividades de arremesso merece avaliação especializada.

Quadril

A dor no quadril de crianças e adolescentes ativos pode ter diferentes causas.

Ela pode estar relacionada à tração repetitiva sobre áreas de crescimento, à sobrecarga de músculos e tendões ou, em situações específicas, a lesões ósseas por estresse.

Por isso, a dor no quadril deve ser avaliada cuidadosamente, principalmente quando persiste ou interfere na marcha.

Joelho

O joelho é uma das regiões mais frequentemente relacionadas a queixas por sobrecarga em jovens atletas.

Algumas possibilidades incluem:

  • doença de Osgood-Schlatter;

  • outras lesões por tração apofisária;

  • tendinopatia ou sobrecarga do tendão patelar;

  • osteocondrite dissecante;

  • outras causas de dor relacionadas ao crescimento e ao esporte.

É importante lembrar que, especialmente em crianças menores, a dor percebida no joelho pode ter origem em outra região, inclusive no quadril.

Tornozelo e pé

Crianças e adolescentes que correm e saltam repetidamente podem apresentar dor relacionada à sobrecarga de estruturas do tornozelo e do pé.

Entre as possíveis causas estão:

  • sobrecarga do tendão de Aquiles;

  • irritação da região de crescimento do calcâneo;

  • alterações relacionadas ao osso navicular acessório;

  • apofisite na base do quinto metatarso;

  • fraturas por estresse dos ossos do pé.

Canelite e fraturas por estresse

A dor na região da canela pode ocorrer devido à sobrecarga repetitiva das estruturas musculares e de suas inserções na tíbia.

Quando a carga contínua ultrapassa a capacidade do osso de se reparar, pode ocorrer uma fratura por estresse.

Essas lesões também podem ocorrer no colo do fêmur e nos ossos do pé, especialmente nos metatarsos.

Quais são os principais sintomas?

O sintoma mais comum é a dor.

Em geral, a criança percebe que a dor aparece ou piora durante determinada atividade. Inicialmente, ela pode melhorar com o repouso.

Com a continuidade da sobrecarga, os sintomas podem se tornar mais frequentes e limitar o desempenho esportivo.

Outros sinais possíveis incluem:

  • sensibilidade localizada;

  • inchaço;

  • dor durante movimentos específicos;

  • redução do desempenho;

  • dificuldade para continuar treinando;

  • dor que retorna sempre que a atividade é retomada.

Quando a dor deve preocupar?

Nem toda dor significa uma lesão grave, mas algumas situações merecem avaliação médica.

Procure orientação especializada quando houver:

  • dor persistente;

  • claudicação;

  • inchaço importante;

  • dor que ocorre mesmo em repouso;

  • dor noturna;

  • piora progressiva dos sintomas;

  • dificuldade para apoiar o membro;

  • redução importante da capacidade de praticar atividades.

Uma regra importante é não incentivar crianças e adolescentes a simplesmente “aguentarem a dor”.

A dor é uma informação importante do corpo e deve ser compreendida antes que o jovem atleta seja orientado a continuar treinando normalmente.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico começa com uma boa conversa.

Entender a rotina esportiva da criança é tão importante quanto examinar a região dolorosa.

Durante a avaliação, podem ser investigados:

  • qual esporte é praticado;

  • frequência dos treinos;

  • mudanças recentes na intensidade;

  • aumento do volume de treinamento;

  • tipo de movimento que provoca dor;

  • duração dos sintomas;

  • períodos de descanso;

  • participação em diferentes modalidades esportivas.

O exame físico busca identificar a região exata da dor e avaliar articulações e estruturas próximas.

Em algumas situações, também é necessário examinar outras regiões do corpo. Uma criança que apresenta dor no joelho, por exemplo, pode precisar de uma avaliação cuidadosa do quadril.

Quais exames podem ser necessários?

As radiografias são frequentemente utilizadas para avaliar o osso e excluir determinadas lesões.

Elas podem demonstrar algumas alterações relacionadas ao crescimento e, em determinados casos, evidenciar fraturas por estresse.

Por outro lado, radiografias não mostram adequadamente muitas lesões dos tecidos moles.

A ressonância magnética pode ser solicitada quando existe suspeita de determinadas lesões ósseas ou quando a avaliação clínica indica a necessidade de investigação adicional.

Nem toda criança com dor precisa realizar exames complexos.

Uma boa história clínica, um exame físico cuidadoso e radiografias adequadas são suficientes para diagnosticar muitas condições.

Como é o tratamento das lesões por sobrecarga?

O princípio mais importante do tratamento é reduzir ou interromper temporariamente a atividade que está causando a sobrecarga.

Isso não significa necessariamente que a criança precise abandonar completamente toda atividade física.

Cada situação deve ser avaliada individualmente.

O tratamento pode incluir:

  • repouso relativo;

  • redução temporária do volume de treinamento;

  • modificação da atividade;

  • retorno gradual ao esporte;

  • fisioterapia;

  • correção da técnica esportiva;

  • treinamento de força e controle do movimento;

  • tratamento específico para cada condição.

Em algumas situações, especialmente em crianças menores ou em determinadas lesões, pode ser necessária uma imobilização temporária.

Criança trabalhando fortalecimento muscular e equilíbrio funcional.

A fisioterapia pode ajudar?

Sim. A fisioterapia pode ser especialmente útil quando existem alterações relacionadas a músculos, tendões e controle do movimento.

Além do tratamento dos sintomas, a avaliação pode ajudar a identificar fatores que contribuem para a sobrecarga.

Dependendo do esporte, pode ser necessário analisar movimentos como:

  • corrida;

  • salto;

  • arremesso;

  • chute;

  • dança;

  • aterrissagem.

O objetivo não é apenas tratar a dor, mas também identificar estratégias para reduzir o risco de recorrência.

Quando a criança pode voltar ao esporte?

O retorno deve ser gradual.

Voltar imediatamente ao mesmo volume e intensidade de treinamento pode fazer com que a dor retorne.

O ideal é que a progressão seja individualizada, considerando:

  • desaparecimento ou melhora significativa dos sintomas;

  • recuperação da função;

  • tipo de lesão;

  • esporte praticado;

  • capacidade de tolerar cargas progressivamente.

A criança deve retornar à atividade de forma segura, com atenção à técnica e à quantidade de treinamento.

É importante praticar mais de um esporte?

A variedade de atividades pode ser uma estratégia importante para reduzir a repetição excessiva de determinados movimentos.

A especialização esportiva muito precoce, especialmente quando acompanhada de treinamento intenso durante todo o ano, pode aumentar a exposição a movimentos repetitivos.

Períodos adequados de descanso e a prática de diferentes modalidades podem ajudar a distribuir melhor as cargas sobre o corpo.

Crianças e adolescentes em fase de crescimento também devem ter períodos de afastamento de uma modalidade específica ao longo do ano, especialmente quando praticam o esporte de forma intensa.

Qual é o prognóstico?

A maioria das lesões por uso excessivo apresenta boa evolução quando identificada precocemente e tratada adequadamente.

O maior risco está em ignorar a dor e continuar expondo a criança à mesma sobrecarga.

Quando o atleta retorna repetidamente a um volume excessivo de treinamento sem recuperação adequada, a lesão pode reaparecer ou se tornar mais importante.

A cirurgia é necessária apenas em situações específicas e é incomum na maioria das lesões por sobrecarga.

Como os pais podem ajudar a prevenir essas lesões?

Os pais têm um papel importante na identificação precoce dos sintomas.

Algumas atitudes podem fazer diferença:

  • valorizar as queixas de dor;

  • evitar incentivar a criança a “treinar apesar da dor”;

  • observar mudanças no modo de andar ou correr;

  • garantir períodos adequados de descanso;

  • evitar aumentos bruscos no volume de treinamento;

  • estimular variedade de atividades;

  • conversar com treinadores sobre sintomas persistentes;

  • procurar avaliação médica quando houver sinais de alerta.

No fim, o que é essencial?

Ouvir a criança, respeitar os períodos de recuperação e investigar sintomas persistentes são atitudes fundamentais para permitir que jovens atletas continuem ativos, com segurança, durante todas as fases do crescimento.

Dra. Mariana Lobo

Ortopedia e Traumatologia Infantil

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CRM 244545/SP | RQE 122612

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