Condições Ortopédicas

Obesidade infantil e ortopedia pediátrica: como o excesso de peso pode afetar ossos, articulações, músculos e o desenvolvimento das crianças

Obesidade infantil e saúde dos ossos e articulações

Guia visual sobre a relação entre o uso de mochilas e a saúde da coluna em crianças e adolescentes.

A obesidade infantil é uma condição de saúde que pode afetar diferentes sistemas do organismo, incluindo o sistema musculoesquelético.

Durante a infância e a adolescência, os ossos, músculos e articulações ainda estão em processo de crescimento e desenvolvimento. Por isso, o excesso de peso pode aumentar a sobrecarga mecânica sobre algumas estruturas e estar associado a determinadas condições ortopédicas.

Na ortopedia pediátrica, reconhecer essas alterações precocemente é importante para identificar problemas que podem comprometer a mobilidade, causar dor ou interferir no desenvolvimento da criança.

Isso não significa que toda criança com obesidade terá um problema ortopédico. O objetivo é compreender os possíveis riscos e saber quando é necessário procurar avaliação especializada.

Como a obesidade infantil pode afetar o sistema musculoesquelético?

O corpo da criança está em constante crescimento.

O aumento da massa corporal pode modificar a distribuição das cargas durante atividades simples, como caminhar, correr, subir escadas e praticar esportes.

Além da sobrecarga mecânica, crianças com obesidade podem apresentar menor participação em atividades físicas por desconforto, dor ou dificuldade de movimentação.

Esse ciclo pode contribuir para redução do condicionamento físico, menor força muscular e maior dificuldade para realizar determinadas atividades.

Por isso, a abordagem deve ser individualizada e, sempre que necessário, envolver pediatra, ortopedista pediátrico, nutricionista, educador físico, fisioterapeuta e outros profissionais.

Quais problemas ortopédicos podem estar relacionados à obesidade infantil?

Algumas condições merecem atenção especial durante o acompanhamento da criança ou do adolescente.

Doença de Blount

A doença de Blount é uma alteração do crescimento da tíbia que pode provocar uma curvatura progressiva das pernas, geralmente com aspecto de pernas arqueadas.

A obesidade ou o excesso de peso estão associados a um maior risco de desenvolvimento e progressão da doença.

A apresentação pode variar de acordo com a idade da criança e a gravidade da deformidade.

Em casos selecionados, principalmente quando identificados precocemente, pode ser possível realizar acompanhamento ou tratamento com órteses.

Quando a deformidade é mais acentuada ou progressiva, pode ser necessária cirurgia para corrigir o alinhamento dos membros inferiores e orientar adequadamente o crescimento.

O diagnóstico precoce é importante porque as possibilidades de tratamento dependem bastante da idade e do estágio de crescimento da criança.

Epifisiólise da cabeça do fêmur

A epifisiólise da cabeça do fêmur (ECF) é uma das condições ortopédicas mais importantes associadas ao excesso de peso durante a adolescência.

Ela ocorre quando a cabeça do fêmur sofre um deslizamento através da placa de crescimento localizada no quadril.

A condição costuma aparecer durante a fase de crescimento acelerado da adolescência.

Um dos sinais que merece atenção é a dor persistente no quadril, virilha, coxa ou até mesmo no joelho.

O adolescente também pode apresentar claudicação, dificuldade para caminhar ou redução dos movimentos do quadril.

Um ponto importante é que a criança ou o adolescente pode não localizar a dor exatamente no quadril.

Por isso, uma dor no joelho sem uma causa evidente, especialmente quando acompanhada de alteração da marcha ou limitação do quadril, também merece investigação.

A ECF precisa de tratamento rápido

A epifisiólise da cabeça do fêmur é uma condição que exige avaliação ortopédica.

Quando diagnosticada, o tratamento geralmente envolve cirurgia para estabilizar a epífise e impedir a progressão do deslizamento.

Por isso, diante de um adolescente com excesso de peso que apresenta dor persistente no quadril, coxa ou joelho e alteração da marcha, é importante não ignorar os sintomas.

Pé plano infantil e obesidade

O pé plano é muito comum durante a infância.

Em muitas crianças, o arco plantar ainda está em desenvolvimento e o pé plano flexível não causa dor nem limita as atividades.

A presença de obesidade pode estar associada a maior prevalência ou maior intensidade de alterações relacionadas ao pé plano.

Entretanto, isso não significa que toda criança com pé plano precise de tratamento.

Quando o pé plano precisa de avaliação?

A avaliação ortopédica é especialmente importante quando existe:

  • Dor nos pés ou tornozelos;

  • Cansaço excessivo durante as atividades;

  • Dificuldade para correr ou praticar esportes;

  • Alteração da marcha;

  • Desgaste muito assimétrico dos calçados;

  • Limitação dos movimentos;

  • Dor associada ao encurtamento do tendão de Aquiles.

Na ausência de dor ou limitação funcional, muitos casos de pé plano flexível podem simplesmente ser acompanhados.

Obesidade infantil e dores musculoesqueléticas

Crianças com excesso de peso também podem apresentar maior frequência de dores musculoesqueléticas.

Joelhos, pés, tornozelos, quadris e coluna podem sofrer maior sobrecarga durante atividades físicas.

Entretanto, dor persistente não deve ser automaticamente atribuída ao peso.

Toda criança com dor recorrente, limitação funcional ou alteração da marcha precisa ser avaliada para identificar a causa do problema.

A ideia de que “é apenas por causa do peso” pode atrasar o diagnóstico de condições ortopédicas importantes.

O excesso de peso também pode aumentar o risco de lesões?

Sim.

A obesidade infantil pode estar associada a maior risco de algumas lesões musculoesqueléticas e dificuldades relacionadas à mobilidade.

Além disso, quando ocorre uma queda ou uma fratura, o tratamento pode apresentar desafios adicionais.

Fraturas e imobilizações

Em algumas crianças, o excesso de peso pode dificultar a utilização adequada de muletas e tornar a adaptação de determinados aparelhos ou imobilizações mais complexa.

O tratamento de uma fratura precisa considerar não apenas o osso lesionado, mas também o tamanho, a idade, a mobilidade e as características individuais da criança.

Em determinadas situações, o tratamento cirúrgico pode ser considerado quando uma fratura apresenta características que tornam a imobilização convencional menos adequada.

A decisão, entretanto, deve sempre ser individualizada.

Cirurgias ortopédicas podem ser mais complexas?

A presença de obesidade pode aumentar alguns desafios relacionados ao tratamento cirúrgico.

O planejamento da cirurgia, o posicionamento, a escolha dos materiais de fixação, os cuidados anestésicos e o período de recuperação podem exigir atenção especial.

Também podem existir maiores riscos relacionados à anestesia e a complicações no período pós-operatório.

Isso não significa que crianças com obesidade não possam realizar cirurgias ortopédicas.

Significa que o planejamento precisa ser cuidadoso e individualizado, com participação da equipe de anestesia e dos demais profissionais envolvidos no tratamento.

A importância da atividade física na infância

A atividade física é importante para todas as crianças, inclusive para aquelas que apresentam sobrepeso ou obesidade.

Exercícios adequados à idade ajudam a desenvolver força muscular, coordenação, equilíbrio e condicionamento físico, além de contribuírem para a saúde dos ossos.

Para crianças e adolescentes, o objetivo não deve ser simplesmente “perder peso”.

É importante estimular uma relação saudável com o movimento, escolhendo atividades que sejam seguras, prazerosas e compatíveis com a idade e as condições físicas da criança.

Caminhadas, brincadeiras, esportes, dança, bicicleta, natação e outras atividades podem fazer parte dessa rotina, conforme as características de cada criança.

E se a criança sentir dor durante o exercício?

A presença de dor persistente não deve ser ignorada.

Quando uma criança apresenta dor durante ou depois da atividade física, é importante investigar a causa antes de simplesmente interromper todos os exercícios.

Em muitos casos, adaptar a atividade, fortalecer a musculatura e tratar a condição ortopédica permite que a criança volte gradualmente a se movimentar.

O objetivo é evitar um ciclo de dor, sedentarismo e perda de condicionamento.

O tratamento deve olhar para a criança como um todo

O cuidado da obesidade infantil não deve ser baseado em culpa ou cobrança.

Obesidade é uma condição complexa, influenciada por diferentes fatores, e o tratamento deve considerar aspectos nutricionais, metabólicos, comportamentais, familiares, sociais e físicos.

Na ortopedia pediátrica, o papel do especialista é identificar alterações musculoesqueléticas, tratar problemas já existentes e orientar a família sobre formas seguras de manter a criança ativa.

Quando procurar um ortopedista pediátrico?

Alguns sinais merecem avaliação especializada:

  • Dor persistente no quadril, joelho, pernas ou pés;

  • Dor no joelho sem causa aparente em adolescentes;

  • Claudicação ou mudança na forma de caminhar;

  • Dificuldade para correr ou participar de atividades físicas;

  • Curvatura progressiva das pernas;

  • Quedas frequentes;

  • Limitação dos movimentos do quadril;

  • Dor ou cansaço excessivo nos pés;

  • Alterações importantes na marcha;

  • Lesões esportivas recorrentes.

Em adolescentes com excesso de peso, dor no quadril, coxa ou joelho associada a dificuldade para caminhar deve receber atenção especial, principalmente para descartar epifisiólise da cabeça do fêmur.

Obesidade infantil e ortopedia: prevenção também é cuidado

Cuidar da saúde musculoesquelética durante a infância significa acompanhar o crescimento, observar a postura e a marcha, estimular atividades físicas adequadas e investigar dores ou alterações que persistam.

A obesidade infantil pode aumentar o risco de algumas doenças ortopédicas, como a doença de Blount e a epifisiólise da cabeça do fêmur, além de estar associada a maior sobrecarga musculoesquelética e desafios no tratamento de algumas lesões.

Mas cada criança é única.

O acompanhamento adequado permite identificar precocemente alterações, evitar complicações e preservar algo fundamental durante a infância: a possibilidade de crescer, brincar, praticar esportes e se movimentar com segurança e qualidade de vida.

Dra. Mariana Lobo

Ortopedia e Traumatologia Infantil

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